sábado, abril 25, 2009

zigurate



pedra ante pedra,
o marrom, dos olhos,
barro que relembra
as crias, fornalha
de inanna, fértil foz
em rios de pó e festejo,
conduz-nos às beiras,
ao caos em que mais
tábuas de cunha
ao que nos inscreve,
ainda sobre os cedros
e sob ares dos celestes:
trigo, batalha e agonia,
tripla escala, esfinge
derruída.

sexta-feira, abril 24, 2009

sijô noturno (à maneira de yi sáng)


si len te às mo ra das de ver me lho ou to nal ° as par cas so bre vo am os tem pos ne ves e to a das ° o e xí lio ar de em gol fos e ma res em bar ca dos ° es pe lham- me por is so as fron tes de ou tro tem po in ver so ° de coi sas ou tras re a li da des pó aos pés ° em que se ca va o du ro tra ba lho do dia fron do so ° tor res vi á veis mou ris cas e pa go des ain da no tur nas ° fer men ta das as vo zes de pás sa ros e ar bus tos ° de da mas de o cas vo ra gens lu a cla ra sob as á guas ° sor ri so de on das à né vo a ma ce ra da ° em ná car e nes gas de á gua e pó re vol to ° ga lhos tran qui los so ler tes que à ca sa re tor nam ° tu do tran si tó rio co mo ar e mar ° con lui o de mon ta nha e ce dro ví ve res bro tan do ° das ru í nas dos a bis mos o ho mem con si go ° à ca sa não tor na tu do ho ri zon te a lhu res das cos tas ° sem por tos sem na da : si lên cio aos len çóis ex ten sos

para assurbanipal, livros-pétreos

as tábuas em nínive, tendo-se
consumido, em barro, em cunes,
marcam-se de tempo, em espaço,
às margens de uma outra história,
essa também de viandante, loas
e danças, siduris machadas de vinha.

às margens da ponta do tigre, formas
e esfinges, ao rei e sua biblioteca –
pétrea de barros e versos – re-
côncava, narrando o reino detrás
das montanhas dos cedros – ao que
vence o aríete humbaba, fronte terrível –

em uma impiedade de desejos, sobre-
humanos, condizendo: morte em tudo
marca-se, o tempo das vestes, em peplos,
mais dura que face e as moscas de outrora –
de deuses, moradas nas águas, falanges
em intempéries, de fogos à bela ishtar.

assim, os velhos leões, em tarso,
encontram-se – comércios de verso –
ao que o pão é recompensa, ainda,
do longe, da foz, dos rios: ao que
não se levanta, ainda.

quarta-feira, abril 22, 2009

bósforos ou boğaziçi köprüsü



booz, touro maculado,
sustende-se frêmito,
estreita à ponte sub-
levada de ponta a
ponta: a nesga.

dali suspendem-se
minaretes e força
entoando, multíplice,
as falas – além – para
uma moabita pedra.

as águas de ali, concordam,
a ponte de fervor,
em bois e paragens,
mar mar rã e o negro
das sementes, ainda.

mehmet forja-se a um só
brilho – freme os olhos
de faetonte, precipitando-
se – às terras da pérsia;
num todo raio, etíopes

desertados, aquém de rute.
de seus dilúvios, fogos,
passante outromano
centro, à cidade-mosquée
bizância e grisverdade:

és lã, fronteira, alhures.

leveza


a prata desfeita
sob as orelhas
à margem de ares

a luz permeando
ainda o escuro
cerco de esfera

vela o corpo
de moedas e lã
que chama

veloz trigal
amarelas mantas
um só traço

o rosto desnudo
e as flores foscam
o mármore

o branco noturno
das pedras suspensas
em pluma e pulso

sexta-feira, abril 10, 2009

nostói na telemaquia

“a memória conta realmente – para os indivíduos, as coletividades, as civilizações – só se mantiver junto a marca do passado e o projeto do futuro, se permitir fazer sem esquecer aquilo que se pretendia fazer, tornar-se sem deixar de ser, ser sem deixar de tornar-se.” (italo calvino)

amorfos, os tempos apressam
chamar de hóspede aquele em
que lei e nome se confundem,
permeando-se numa não história.

amorfos, os homens todos garantem
corruptelas de serenas sereias,
silente-morosas, em que tudo negam,
em gris-rochas cavas, macilentas.

proteu retorna à narrativa, voltando
o tempo noutras parragens náuticas
e revela aqui que ainda deve permanecer
intato ao colo – já velho de penélope.

sem ceras e lótus, os companheiros
seguem, sobrevindo os filhos-reis,
os fios de ciclos, mourões espicaçados,
tentando a nostalgia experimentada:

à morte de argos, contínuo ninguém,
no fim todo desejo é perda. e se perde
a todo passado legado, em mais fios
e praias desoladas.

musical baker, para o chet


tempo e tempo para a lenta
fôrma. ar, respiro e fumaça:
pulmões, apenas conhecidos,
tomam na mão o ainda pronto;
ao chão, da janela, tomba o
corpo, soltos pistões em tubos,
laughable and cool, voz entre-
cortada de silêncios, noite de
sol e véus sobre os olhos, ainda.

toast to glenn gould


a throw of the gourds, your fingers,
boards and finger boards
on dices, black and white,
sound and silence, that dice

an elephant heart, glen without
throat – a glee party of mirrors –
or valley. hidden sure sores,
art and fugue – a stilly night,

on a gold whistle, mind wanderings
the wander time slowly spent.
that clavier, hood holds wood engravings,

on a sunbeam, seems a long day-
dream or a gleam less crap:
craps falling into the ground.

quarta-feira, abril 08, 2009

variações para glenn gould


"the purpose of art is not the release of a momentary ejection of adrenalin but is, rather, the gradual, lifelong construction of a state of wonder and serenity." (glenn gould)



glenn, vislumbre do nome, em
trinco de ponto e contraponto,
júbilo – glee – de teclas, ouro e
dados – lançados – sob a cabaça
sonora de chamar-te, ao piano,
com delicadeza claridade de
enormes dedos inflamados.

espera-se da fuga, em fuga sob
as tormentas, uma gradual percepção –
serena e cálida – de celeridade.
cantas ainda, em silêncio, o ar
eleito do instante em que se
escrevem as letras ainda não
presentes, ainda só ausência.

no ano de 1823, púchkin reminded


e, olhando altivo, com profundo
desprezo, a vida, ele não quis
abençoar nada em todo mundo. (aleksandr púchkin)



púchkin, desdenhando rouxinóis,
compõe num só traço a vida –
o que ainda esperar dela – espadas
e canções. homem ainda caído,
cinzas de amplos vazios, poros
e suor. da graça, desprezam-se
os feitos e as imagens todas dissi-
pação passamanes. um sonho,
de imenso, conluia-se nesse
inverno oitocentista ao nada,
o mundo torna-se, ainda vejo.

pau casals


corrente, entre cordas,
o som de silêncios graves,
canto de pássaros seus
restos rebatizam-se em
ventrell - ossos e ocells -
no ar de muitos vazios.
faz, por isso, cantar ao
que elege, d. sebastião,
sobre o tirso da madeira
talhada - aleja as fôrmas -
em que retornam teu presé-
pio de sons, sãos e cercanias.
o que se ouve calar nesses
paus que gemem? o que se
casa, em ais? sustém, aos olhos,
um ainda sentido ouvido e
me cala como pomo nos lábios,
narcisos brotando, abril.

terça-feira, abril 07, 2009

de repente


entre o que escrevo e falo,
as possíveis mãos ainda em
movência: experiências do
silêncio e do rastro, gasto.

cuidas do retorno que é, ele
também, lembrança do lar.
às mãos, cala o tempo noutra
noite, noutros ramos e flores.

sábado, abril 04, 2009

νέκυια


desce à casa, em fogo,
materna para ao fim
gozar de glórias, tristes,
frente à desfigurada face
da dor do povo.

preza, com isso, à toda
fronte - em fruto e flor -
que se conluia em cedro
pó e flama. às marcas,
tecidas, todas, permanecem.

hermes guiando os espectros,
gast de um hóspede,
conduz a paralaxe do
momento - lembra ainda,
fronte a todo tempo,
gasta - joelhos e mãos
sobre espinhos do pai -
no que não converte,
no que não se mantém.
precede assim o gosto
da morte - que não sendo
glória - mancha a mortalha,
essa também escrita.

quinta-feira, abril 02, 2009

ante a realidade


freme, boca vazia.
aos cálculos gris:
calêndulas, ouro e pó.

barba, bisão: falanges.
o homem tece o destino
do homem, que ouve.

à margem, os sabores
soam como flames:
refugiada manhã e sol.

quarta-feira, abril 01, 2009

arco, vida e lira (após heráclito)



tudo cala, nas horas de delfos,
frente ao tenso ar, que é vida,
e à morada de louros, corda e
cor, onde tudo cansa e canta:
vozeio ambíguo do tempo, ente.

tudo fala, nos dias em delfos,
atrás da máscara, que é lira,
e à travessia do homem, mar e
mazurca, em qual falange ou
gárgula, além do tempo, ser.

do mote drummondiano, memória e espéculo



rastejando o dia, como horas,
solfejam cinzas que já são pele
e nácar de rosas esculpidas.

calham-se, em pedra polida,
as fôrmas dissolutas do ritmo,
da voz: gorjeio de rastros, vôos.

intempérie e cristal, fonte gasta,
cisnes oscilam a retração, reflexo,
lembra a dança – tália – num elo só.

palavra põe à boca, fornalha dentada,
um tempo de memórias, riscos feitos
à mão do tempo, em um hoje, repleto.

memórias e aparências a partir de drummond


não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.

(carlos drummond de andrade)

segunda-feira, março 30, 2009

vida das palavras


silencias, ao som de ondas
e mexilhões, um corte - avil-
tado - nas nódas da memória:
na palavra, grisnevoando-se,
não cabe - o real - latências
de sobrevida. silêncio, o coro
cora ao adentrar, rododendros,
fazendo calar um ano, o palco
todo cego, negro óleo: tudo
só, abandono. silencias, ao
saber cálido de queijos, moro-
sas entranhas ao que calas.
mas um voz ainda perturba:
ter, em silêncio, que ouvir
sua própria língua.

sexta-feira, março 27, 2009

babel de doré


às mãos erguidas, a língua,
toda una, demove-se.
em variadas formas, ouve-se
ninguém ressoando: outis.
odisseu, fruto da sublime
canção de sereia, subleva-se.
ato e narrado: fôrmas da palavra,
bavelizando-se em um não dito.
concluio hespérico de cera e ar:
às cordas gastas, poderia naufragar.
sombras e táteis cerimônias,
o choro do herói, o canto silencia.
doré traçando gastos sortilégios
da palavra, sedução, hospeda-se.
o cimo toca o céu, às mãos do deus
sem nome, próprio nome, a língua
clama um ninguém, desértico, e
tomba.

ܕܵܪܘܲܐܙܲܐ ܕܥܵܐܫܬܲܪ



eu, em fonte ou vinha,

do pólen fremido às

horas de véspera, prenho

de grãos, ventos corruscados;

por ovas, aos corpos translu-

zentes: zôagría, à vida pede

peso, balança. ishtar banhada

em pedras de vidro, leões:

turquesas.


do eu que dali nasce brota

flor e cedro, às portas, imagens

e procissões: rememoração

dos princípios, da babélica

babilônia de outros deuses.

quinta-feira, março 26, 2009

apoteose de homero






arquelau espaça em mármore
a duração glauca do dáctilo:
a ira e o homem, entre os deuses.

glosa ao mote borgiano


lasso laço à forma do ver,
o que em mim nasce, des-
folha - em nada reparte -
mantém-se por viés.


lastro, tudo à beira, à
mágoa. nulificam tempos,
húmus plurais: ao que já
não era e que cá se vai.

lastra, à fonte nova, não
há perjuro - percurso -
tudo torna a ser, frequência:
fuligem amara, magenta, vir.

lassu tudo ainda percorre,
aos paradoxos, aos castelos,
meta de uma meta de fim:
transcreve a história, uni-
córdia, tapete ao grão vizir.

precursores

Borges disse, à maneira de mote:

“El hecho es que cada escritor crea a sus precursores. Su labor modifica nuestra concepción del pasado, como ha de modificar el futuro. En esta correlación nada importa la identidad o la pluralidad de los hombres."

quarta-feira, março 25, 2009

passeio, vistos à margem



voz ante voz:
calhada figura

uma dança sob
plátanos

a estrita escrita
anterior

hospeda-se um
perjuro

da imagem

terça-feira, março 24, 2009

maria flor


jaboti
acaba de nascer,
aos olhos doutra
negritude, ônix.

traz,
alegre, corada,
uns olhares
ainda ristes.

aos jardins,
em que povoa
toma, à sede,
nas mãos
o mundo, em
mudecidas
palavras.

fulgor gorjeado,
ao que tudo brinca,
canta e
cala
s u a v i d a d e
carmim.

safo parecendo-se...


ademais

o que se lê aos burgos
metaformoseia-se,
píramo tornado amora
tisbe suplicante em sombra.

cala o às vezes,

noturnos

memória

ainda, dos traços,
arranco, dum tranco,
os óleos do dia

ontem ainda, há,
de um só tempo,
margeando áloe

manhã, ainda dói,
corrompe os dias,
dum monte, assalto.

aprendendo poesia com oswald

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi

retorno

entorno, frente à vida,
um desses outros, muitos,
copos de sua
avidez.

poeira leve, à casa dela
torno - outro nome
para ninguém,
nenhuma.

paragem marfim,
destelho as estrelas
soluçando: acende,
lidando.

maura manhã,
mútuo, mourisco.

quinta-feira, abril 17, 2008

BLOOMSDAY BSB 2008



2º BLOOMSDAY BSB 2008
pluriMONOlogos
comemoração festivo-poético-lítero-bebedeira
16. jun. 2008
seg., às 20h
Leitura dramática dos Monólogos Joycianos
Dança e Performance
Música e Literatura
realização
Ateliê de Literatura

segunda-feira, março 17, 2008

às vezes,
o silêncio
se sente
por entre
vigas e pó

escrito,
calando,
dorme
em vias
da boca

revolto à
casa,
carcomida
ventana
de lírios.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Literatura e a presença

É preciso, antes, entrever que a palavra literária é aquela que acaba de nascer. O presente moldado da escrita em que se ausenta a voz, o signo, faz emergir necessárias horas entre a treva – da letra impressa sobre o papel branco – e o silêncio, sibilante, das faces – disfarçadas – da linguagem imaginativa.
A literatura se faz sobretudo no momento em que se pode parar o dia, pois o texto, em estado poético, faz-se gravar no espaço e no tempo condicionado do salto súbito. O sujeito que a fabrica – lendo-a ou escrevendo-a – é antes aquele que optou pela ausência farta da imaginação: mundo real é mimetizado em busca de uma língua pura (reine Sprache) que revela o ser primeiro, a língua nominal de Adão. A literatura, assim, é antes recusa. Uma re-invenção do passado e do presente, uma re-visão do homem em sua transitoriedade.
O extremado século XX nos doou esta visão do homem temporal em duas figuras centrais: Freud e Heidegger. O sujeito moderno é cindido pela certeza do ‘para-morte’. A literatura torna-se, para concordar com Foucault, um “murmúrio sem fim”. Ruidosamente o texto segue se perfazendo em uma plurivocidade de “harmônicos” que busca pôr um novo véu sobre a fala do homem mecanizado, pragmático, rotineiro. O texto traz o estranho mais próximo, faz estranhar-se com o aquilo familiar, ou ainda, numa palavra freudiana, Unheimliche. Os sons das palavras – mudas por estarem fixadas como texto – desvelam a carência do ser, justo naquele ponto que falha a linguagem. Stefan George assim compreendeu, sensitivamente.
O texto literário – como mensagem verbal artística – compõe-se de uma simetria entre expressão e conteúdo. A chamada queda do eixo paradigmático sobre o eixo sintagmático da linguagem reflete os mecanismos de significação literária. A produção de multissignificação só é possível na medida em que se altera a grade sintática (a partir dos mecanismos de deslocamento de significantes) ao mesmo tempo em que a semântica (pelos processos de condensação significativa). Estes processos de alteração são geradores de linguagem nova (novidade estética). A literatura deve ser capaz de fornecer informação sem comunicação; informação por sensação da forma. Peirce: “O poeta faz linguagem para generalizar e regenerar sentimentos”.
A experiência literária é aquela que a morte pode marcar, inscrever. A certeza temporal das possibilidades hermenêuticas é confronto oximoresco com a imortalidade, com a atemporalidade do texto. A experiência literária então é uma questão do tempo produzindo diferenças; conduzindo o aspecto póstumo da escritura através do tempo (entendido enquanto mortalidade) e do espaço (percebido como distância ou intervalo da letra e da leitura).
A metáfora desse espaçamento temporal é evidentemente aquela que pode pretender a visão do livro como objeto da memória: Dante Alighieri escreve, em Vita nova, “em algum lugar do livro da minha memória”. O livro memorável intenta ao homem a reflexão do aspecto primevo, do conluio inicial entre caos e cosmos. Mallarmé o intentou – a partir dos mistérios das letras e da música – chamando-o ‘O Livro’, no qual todas as leituras fossem feitas, eternamente (em que há inclusive cálculos, diagramas, poucas palavras, abreviações, indicações de tom de voz, preço, vida média do francês finissecular). Os rastros de memória dirigindo (ou ‘digerindo’) a realidade da imagem da presença, eis um princípio basilar da linguagem literária.
A transparência ambígua do texto literário é antes uma pulsão para a morte, sublevação da imago. Basta à linguagem seu perpassar de passos, muito além da vileza de vida, a literatura encarna o exílio. O poeta faz do texto o algo translúcido, aquilo que falta ao cotidiano esmagado. O poema é, acima de tudo, um acontecimento trevoso em perigo. O relampejar deste perigo – que para Benjamin é a reminiscência histórica – é, poeticamente, a metamorfose da linguagem para encarar – mascaradamente – o abismo, além da fonte morosa da tradição. Abismado, o signo se pergunta o porquê das coisas: por que os frisos?
A escritura atira o homem no des-fundado, no abismo (averno tenso) em que Orfeu perde Eurídice. Esta, mero traço invisível do retrato estipulado pelas letras (e cordas) do poeta inicial. Esta ruína – a perda – é o extremo da experimentação, ponto impossível, em que além-túmulo, a morte ainda não sentida é realizada. Orfeu não consegue olhar o ponto nebuloso da finitude, pois o mesmo é origem concreta e além das palavras. Cantar, pela lira, é tentativa desta origem, mas não apaga tudo, resta a beleza. Apartados, os amantes são a própria existência literária enquanto mito: eterno desdobrar-se de significantes em queda na qual a aparição do existo (latino) torna a ser um ‘elevar-se para fora de’. A experiência do fora da ausência é, no texto literário, presença.

sexta-feira, outubro 13, 2006

apoteose de homero


rasa ilíon santa, corte
de hinos - espondeus -
multinavegados, assaz
fogosos: entre lotófagos
os versos ecoam em
delírio rubro, polifluente
mar, oinopa ponton,
umbigo da escritura ante
letra. lascas de seu busto
heróico-cego, falange
de pêlos odor do hálito
que enleia homens, à
desventura aquéia de
querer glória eterna:
oneiros ajustando o
canto, olor ilias.

contadas as naus, o busto
sobrevém em dolo: dem-
ência do demo, doidivã.
dos mirmidões à ébana
nau negra do astuto: linha
da história, meta-história
eneleada de amigos, hélas,
lendo os livros todos.
emerge, mago, desta bengal -
sustendo a mente, imago de
andros - e em dactilorróseas
linhas, horizonte solar, celebra
os cavalos celestes, célere
saindo do mar: corpo, natura-
morta de mulher: helena.

ENVOI

feito de flor, orvalho teu semblante
discurso se faz javista de linguagem
dor do povo, glóriaklêos, polýdakrus
teus simulacros todos reverberem
no portentoso leito, tálamos thalásseos,
murmurante suspiro do polifemo-ásneo,
kikléskousi, “chamando-me... ninguém”:
canta, hom, nesta nékuia que refulge a
psykhén kikléskon patroklêos deiloîo
clamor da psiquê, invocada da patrocléia
ira, astúcia: thýmos de melodia, verso
brocado, blúmeo viandante, em noturno
rio, invocando as lifféias salobras: canto
sereno de sereia: r é s.

múmias dos pântanos

inesperada pele
sobre os ossos,
gris, capeladas:

corda no pescoço:
gris, mas total-
mente composta.

de cócoras, pós-
julgamento, testa
límpida, enrugada.

nos pântanos, sem
preparo, o gorro
sobrevive ao tempo:

pés perfeitos, gris;
a anca, costelas e
pele; perfil, dante.

große fugue von beethoven

recupera os olhos, cabelos
revoltos, variação, vórtice
rememorante da natura

náutico abismo sobrevém:
naufrágio de pedras, andro
namorado em tríplice som

sonho dissonante, tons, loa.
soturno salto, violeta hybris
sonora, santeando, presto si.

sibilante fúria do não, em maior
silente allegro de cordas, daquel
si, surdo: sobrepuxa movimento.

quarta-feira, outubro 11, 2006

ateliê nas próximas terças

imagem do mondego


paira ainda um corte
- tecido de bordar, voz -
treme o chão, uivando
mal ditas palavras, infausto
anúncio, sentença de gentes
- corte, à mão, tece à destra -
conluio de coroas, convívio
exílio de madrágoras, púrpur:
relicário, escorrem maculosos
os peitos do por achar.

lira para fabrícia (i)

murmúrio pende em
dossel quebrado, colo
furtivo, que cessa a de
límpida memória: saúda
à voz de vento, de vozes.

murmurío afaga em
cópia, do nunca houve,
em testar-se pluma,
mover-se nágua, ainda
calar-se nua: alívio de ar.

à dama inês, desaventura talhada: úa vontade sua



sussurra "pedro, pedro"

em voz veludosa e pêlo

engomado, lúcida e voraz,

da mãi de netos, de reis

vindouros ainda restam:

o fico do que ficar.

calor em manto de lágrima

colorada, em quinta de famas

miserando, amor maior que

rege a divindade, de túmulo

em branca pedra e pele basta

adornos aos carvalhos e lâmina

entrecortada.

da coroa, majestosa magenta,

fez-se um dia trelladar o corpo,

em curtos, cóleras: vê-se o belo

oiro - broccato, renda colorida -

carmim jorrar do engano, o cego.

memórias dinas ao caso triste,

quebrantam, revoam revés ad

locum tuum: sem rezam é a vers-

ada - ramalhete, tufo de caules

servis ocreado, bulbo orquidário -

m o r t e: sussurro do após.

terça-feira, outubro 10, 2006

memória em livros


em holland park, london,
esmorreceu ainda um há
de livro, página e térmita.
em holland park, anos 40,
o labirinto persiste estático
e ainda a oferecer capas sob
a bomba, 2h40m de bomb-
ardeiro sobre a cidade, sem
vestígios do centro, sem
muralhas carcomidas, mas
persistem, queimando uma
aurora, de homens, mínimo
três, bem enchapelados.
caput em vestimenta buscam
um interlúdio daquilo ainda
porvir, de anos em retrocesso.
em holland park, fotografado,
o concerto solitário de machados
ainda decapitam a alma de
senescentes óculos ou ainda
da esperança, em negro, da vinda,
ainda que gozosa, dum estrondo:
pletora, em holland park
um haver de palavra, moldada,
de como quem rouba um
livro, uma palavra, a frase,
limada do que limar, entre vigas,
veios, vedas, tâmisa em feixes
fraturados, neste instante, em
holland park, london, 1940, o
livro não parou, fogo, continua
campanário, s i l e n t e.

quinta-feira, outubro 05, 2006

à margem de Άννα Μαρία Καικιλία Σοφία Καλογεροπούλου

coloratura: isolda de imagens
máscaras de voz in mezzo del
camin'.

anna maria, plurabella violácea
e rubra das tensões, tendões da
voz.

noite transfigurada: morre a
isolda - ireland desperta - em
foz.

scherzo: passos miúdos, rodopia
- espanto - pleno plectro nascem
serenas.

minueto: selva oscura de prazeres
voz e fonte: τέρπεω - delicada - χoρός -
dança, coro.

Σοφία

em um salto, premeditado -
prática poética -
os pêlos grisnevoados
ressurgem em instante -
segundo ou minuto -
terra, ocre que me
recorda o ainda não visto
mar egeu.

ode a maria callas

wagneriana, a voz escorre,
fluido liquescente, vocifera
em agudos a pobre turandot.
por ironia, a cantante, musa
héndeka, satisfaz ouvido e
voz como se à garganta de
puccini ao não concluir a peça:
da china transcorre in questa
reggia puro gozo ou silêncio
diáfano - imagem deifica, imago
ou pureza de castelos, pássaro
ou filomela; apenas crisálida -
inflexível teia; filame de penélope
que cercilha - kérkis - o rever-se
em sonho ou tempo: noite trevosa,
monturo espaçado em templo de
listras - tigre turbilhonante em
floresta negra, ébano. grito de
morte, palpitante, feito nova de
ocaso, caminho extremo. ao fim,
hybris de voz encarna máscara
a mascara: cenários de tez e
adunco nariz soprando cálida
cor, cor, voz, voz: espéculo.

segunda-feira, outubro 02, 2006

hoje, nada de metafísicas
ou poéticas:

petição é, hoje, poema

ou além-hoje, poema
deve ser bomba lançada

poema é, amanhã, petição

ou além-ontem, petição
deve ser lança-chamas

amanhã, nada de poéticas
ou metafísicas:

sangra, agora, o vermelho
alegria que se esvai num
coup sem acaso, num estado
sem lei, mas dizendo-se
per se, moral

calemo-nos, remotos

define a sua cidade, gregório de matos com modificações

De dous ff se compõe
este país a meu ver,
um furtar, outro foder.
Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito e bem feito:
por bem digesto e colheito,
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra

De dous ff se compõe.
Se de dous ff composta
está o nosso Brazil,
errada a ortografia
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
Este país a meu ver.
Provo a conjetura já
prontamente com um brinco:
Brazil tem letras seis
que são BRAZIL,
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

gregório por nós

Quem haverá que tal pense,

Que uma câmara tão nobre,

Por ver-se mísera e pobre,

Não pode, não quer, não vence.

silêncio político

pólemos: debandada,
à bandalheira azul, em
atos, catos, matos -
um hora, pane em sp,
espera, espera, espera;
de repente saem os dois
e apenas 7 pontos do povo.

pólemos: bandalho de velho
resmungão, azul-amarelo,
sorriso cínico - feito cão -
sorri às fotos compradas,
às manchetes forjadas, aos
700 vestidos de primeira
dama: uma hora em pane,
sp parou? saem, os dois,
devassos carecas.

pólemos: arranjo orquestrado
de ratos, verdade ou certeza.
da bandeira, hoje retirada, uma
gota do vermelho - sangue de
povo e não de nuvem - morrão
ardendo ainda, conluio, conchavo.

pólemos: e o homem, de barbas
brancas brandas, ainda resiste:
ora quem já levou pancada, sem-
pre mais difícil um aconchego.

pólemos: põe logo pra fuder,
como em el salvador, único
do globo que compreendeu
que superávit não é apoteose
e estabilidade não é povo, mas
antes palavra - até feia - que
impuseram, incalcaram;
pois nessa cidade o que falta,
gregária e gregorianamente:
verdade, honra, vegonha.

sexta-feira, setembro 29, 2006

richard e shakespeare


richard, the third:
king-horse: sabedor
da liturgia, entre
o que pode e o poder
brindam o término do

dia, em que se perdem.

epitáfio shakespeariano

a horse! a horse!
my kingdom for
a horse! ricardo
dizia em outra l-
íngua, movente,
sofrível em esp-
aços: tempo, trá-
cio e mortal de
um índicio, sinal,
em despoder. and
i will stand
the hazard of
the die: tomba
a coroa direita,
sobre homens, e
reluz, à sinistra,
um sinal de espera -
the day is lost -
ou invenção em
que o homem
se faz, fará. é,
reverberando.

segunda-feira, setembro 25, 2006

a máscara mortuária de dante


abaixo desta máscara-
gesso, que cerca e sitia,
havia - do exílio em ravena -

terzinas. sob a máscara,
dante petrificou-se ao acaso
das consteladas donnas

beatrice(s) e auroras dedicadas
à visão da ilusão, imagem do
fim, canto xxxiii, em que a

deidade se perfaz em número
jazendo em apenas um uno
devario beato, sopro ou sussurro:

um muro de charcos e da ilha
áurea - primum mobile - arco
dourado do santo ou santa que

apartam virgílio de sua jornada,
tornado ao limbo, sem batismo.
o corpo crédulo caiado cai: como

enfim, alighieri, sem terras, retorna
e sente paolo e francesca, amantes
infernais, retombados ao barco ou

ar em que um arauto poderia guiar
esta face austera rumo aos astros
comoventes de esferas estáticas ou

ainda representações de luz, estrelas
em aparições - virgens imoladas ou
cruas - estrela-phános: rosa-dos-ventos

em 32 moventes paradas, roda
de rumores rastejantes em que
sai a guiar-se, em travessia, por

altre stelle. movência.

sexta-feira, setembro 22, 2006

retorno a ítaca

de um só soluço de esferas,
aguardam, os andros, as cos-
tas do rei: polimétis. a hermes
sombreiam, pós-colunas, à
insula-peninsulada diablin or
dyoublong... hermes, dá termo
às porções de circe: moly, planta
bloom:

da joyceana tigresa ao antídoto
grego, os ardis ulissáicos resso-
pram na voz de leopold, un fou,
que espera não uma penélope
tecelã, mas nausícaa que vê a
nu, a nau doutra época em que
a diá surge, transparece? diá
phanós, é som e acaso.

quarta-feira, setembro 20, 2006

variação de baudelaire


sur ta chevelure profonde
aux acres parfums:

espelho de pele, vinho da manhã
ante-manhã: frio, frio, mas
igualmente dançam minhas
serpentes duma source de gelo
ou da boca, borda de dentes.

estrela, estrada estiagem de si.

bloom oder blume


das blume, mr. bloom:
is it not blumenkohl?
nein, it's only blumenau!

saint rose: 70 cannons,
from salvador. a nau
virou-se ao atlántico!

mrs. bloom knows an-
other seems: analflower:
o tell me all about ana livia.

in the liffey, das blume
isst ein blumenkohl:
aguardando d. sebastião.

dum som de comentário

o som de rodgers and hart:
rebrilham em rochas ou cor-
ação: my funny valentine.

risível (laughable) o aquilo
unphotographable

menos que gregos ou do
falar smart-olhos:
diadorim ressurge em
diamantes de óleos eólicos.

cada dia: um dia valente.

um pouco a mais gozar rimbaud

"où les serpents géants

dévorés de punaises

choient, des arbres tordus,

avec de noirs parfums!"

un peu plus du

rimbaud (partitivo)

abram-se serpentes - gigantes

de calor ou decoros pugilistas -

escolhem, em árvores do cerrado,

nus e ébanos perfumes.

segunda-feira, setembro 18, 2006

ditirambo nietzschiano ao dia 16-09-2006 (sem explicação ou credo)

pagar na mesma danaca

fumaça em olhos, em espera,
o barqueiro, dos olhos: hipogrifo
hoplita de horas, hespérides.
de quem não vê, nada vê
diante de si, ou que em
si condena: atitude revela.

há de dançar, dânae (em
estática fotossíntese) dan-
ação, delírio de conhecer-
se daquilo que desprezo.
que carregue as danaides,
traidoras: doudas dan-
ça: suffit! dano, lesão
daquilo que esquivo ou
repulso, pois nada em si
traz o sal, o rubor dum
sorriso que lateja alegria.