
terça-feira, abril 28, 2009
leveza 2

gabinete do dr. freud

estranhos bustos recobrem
o passado familiar: mal
dos sonhos, dizer de idos.
deita-se, clínico olhar
de fênix ou pássaro que
se leia de enquanto horrores
o ventre fêmeo deslinda-se.
cabeças reclinadas nessa
coleção de pó ante areia,
o livro persabe o audível
nefando: conluios de luas.
júbilos, de outro tempo,
inibem os dedos, uma falta
e à flama da fala esvai-se
em um mosaico de pétalas.
segunda-feira, abril 27, 2009
pássaros nus, dos olhos de bavcar

recuam e coam pás-
saros entre abetos
e tinta branca em
um ocaso nevoado
ao ver às veias
volumosas entranhas
do púbis de pêlos
os seios redondos
sobrevoam as faces
ao não ver o visto
da face oculta na tela
a luz de um só dia
em pomba e deidade
anseia a espera de
uma noite carmim.
sebastião em san vicente nautec
um ti, à brassaï

linha vertical
já de sombras
grises fôrmas
anseio da espera
– vesperal –
anúncio dolente
herético pesar
de plumas
lembra, vívido,
teu corpo dobrando-se
aos sonhos de outra manhã
nos tempos
dorme contorno desnudo
linha horizontal
já de clarões
alvas formas
concretas demandas
– sazonal –
ação célere
sagrado pesar
de chumbos
é, vívida,
um corpo estendendo-se
aos dias de outro sonho
em finitude.
catacumbas de nadar
arma(dura) de andrè kertèsz
olho de brassaï
caminho de heidegger (1)

a meio passo da palavra
dor ventre pálida essência
em um caminho só névoa
consomem-se suspiros
sonho ante sonho câmara
v a z i a
solfejo ao tempo nu
sendo medo entre os corpos
mortos postados de silêncio
ainda as palavras tecem
alquebradas de naquim
aos olhos fervilhando
crepúsculo inpensado
ao olho perfaz o odor
m a ç ã
falta a imagem que sem
nadeia a coisa oca
da rasura e corpo
corpo saltando as formas de seu jardim
em ombros de casas, de telhas e calhas,
convergem, assim, sem um hálito alheio,
as cores de tâmaras e folhas de erva doce.
compete, no entanto, às vozes de ali
cantar um só canto – esse mesmo amor
e guerra mascarada – aos homens todos
revoltos e nostálgicos, conducentes e febris.
desnuda pois o seu desenho; em que desdenha
os prazeres de estar – lápis-lazúli e cedros –
entre corpos e pérolas, entre jamins de ela
e fortaleza de arcos. a vida toda que poderia,
vida essa que só almeja, à dança de cabelos,
vestimenta de outro, vertendo-se às folhas
delicadas, de olhos, na cor do tempo, na pele
ocre e café. ainda cala, o silêncio talha a pedra.
sábado, abril 25, 2009
zigurate
sexta-feira, abril 24, 2009
sijô noturno (à maneira de yi sáng)

para assurbanipal, livros-pétreos
as tábuas em nínive, tendo-seconsumido, em barro, em cunes,
marcam-se de tempo, em espaço,
às margens de uma outra história,
essa também de viandante, loas
e danças, siduris machadas de vinha.
às margens da ponta do tigre, formas
e esfinges, ao rei e sua biblioteca –
pétrea de barros e versos – re-
côncava, narrando o reino detrás
das montanhas dos cedros – ao que
vence o aríete humbaba, fronte terrível –
em uma impiedade de desejos, sobre-
humanos, condizendo: morte em tudo
marca-se, o tempo das vestes, em peplos,
mais dura que face e as moscas de outrora –
de deuses, moradas nas águas, falanges
em intempéries, de fogos à bela ishtar.
assim, os velhos leões, em tarso,
encontram-se – comércios de verso –
ao que o pão é recompensa, ainda,
do longe, da foz, dos rios: ao que
não se levanta, ainda.
quarta-feira, abril 22, 2009
bósforos ou boğaziçi köprüsü

sustende-se frêmito,
estreita à ponte sub-
levada de ponta a
ponta: a nesga.
dali suspendem-se
minaretes e força
entoando, multíplice,
as falas – além – para
uma moabita pedra.
as águas de ali, concordam,
a ponte de fervor,
em bois e paragens,
mar mar rã e o negro
das sementes, ainda.
mehmet forja-se a um só
brilho – freme os olhos
de faetonte, precipitando-
se – às terras da pérsia;
num todo raio, etíopes
desertados, aquém de rute.
de seus dilúvios, fogos,
passante outromano
centro, à cidade-mosquée
bizância e grisverdade:
és lã, fronteira, alhures.
leveza
sexta-feira, abril 10, 2009
nostói na telemaquia

chamar de hóspede aquele em
que lei e nome se confundem,
permeando-se numa não história.
amorfos, os homens todos garantem
corruptelas de serenas sereias,
silente-morosas, em que tudo negam,
em gris-rochas cavas, macilentas.
proteu retorna à narrativa, voltando
o tempo noutras parragens náuticas
e revela aqui que ainda deve permanecer
intato ao colo – já velho de penélope.
sem ceras e lótus, os companheiros
seguem, sobrevindo os filhos-reis,
os fios de ciclos, mourões espicaçados,
tentando a nostalgia experimentada:
à morte de argos, contínuo ninguém,
no fim todo desejo é perda. e se perde
a todo passado legado, em mais fios
e praias desoladas.
musical baker, para o chet
toast to glenn gould
a throw of the gourds, your fingers,
boards and finger boards
on dices, black and white,
sound and silence, that dice
an elephant heart, glen without
throat – a glee party of mirrors –
or valley. hidden sure sores,
art and fugue – a stilly night,
on a gold whistle, mind wanderings
the wander time slowly spent.
that clavier, hood holds wood engravings,
on a sunbeam, seems a long day-
dream or a gleam less crap:
craps falling into the ground.
quarta-feira, abril 08, 2009
variações para glenn gould
"the purpose of art is not the release of a momentary ejection of adrenalin but is, rather, the gradual, lifelong construction of a state of wonder and serenity." (glenn gould)

glenn, vislumbre do nome, em
trinco de ponto e contraponto,
júbilo – glee – de teclas, ouro e
dados – lançados – sob a cabaça
sonora de chamar-te, ao piano,
com delicadeza claridade de
enormes dedos inflamados.
espera-se da fuga, em fuga sob
as tormentas, uma gradual percepção –
serena e cálida – de celeridade.
cantas ainda, em silêncio, o ar
eleito do instante em que se
escrevem as letras ainda não
presentes, ainda só ausência.
no ano de 1823, púchkin reminded
e, olhando altivo, com profundo
desprezo, a vida, ele não quis
abençoar nada em todo mundo. (aleksandr púchkin)

púchkin, desdenhando rouxinóis,
compõe num só traço a vida –
o que ainda esperar dela – espadas
e canções. homem ainda caído,
cinzas de amplos vazios, poros
e suor. da graça, desprezam-se
os feitos e as imagens todas dissi-
pação passamanes. um sonho,
de imenso, conluia-se nesse
inverno oitocentista ao nada,
o mundo torna-se, ainda vejo.






