domingo, julho 23, 2006

ez novamente



na cadeira,
com suas rugas,
o velho poeta -
não sábio, não poeta,
não santo: desconfio -
pousa em ideogramas,
pisan cantos pisando
a atmosfera nubilada
polimétis de moderna-
idade.

and then went down to the ship,

e'tão vão pra nau

ez, sobre a cadeira,
não sonha madelaines,
ou pedaços crocrantes
de irrealidade, mas
i punti luminosi.

sábado, julho 22, 2006

pomar da língua

a mátria iniciou-se:
século xii(i), taveirós:

No mundo non me sei parelha,
mentre me fôr como me vai,
ca já moiro por vós – e ai!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia
quando voz eu vi en saia!
Mau dia me levantei,
que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, dês aquel dia’, ai!
me foi a mi mui mal,
e vós, filha de don Paai
Moniz, e ben vos semelha
d’haver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d’alfaia
nunca de vós houve nen hei
valia d’ua correa.

guarda pois a letra trans-
formadas em semelhança
guarvaia = turquesa nobre
à pobre ribeira, mhia senhal,
poesia.

entr'acte


dante: uscimmo a riveder le stelle
puro e disposto a salire alle stelle
l'amor che move il sole e l'altre stelle.

rever estrelas - entremeados -
iessiênin no hotel inglaterra:
nada novo nesta vida; rever,

sonhar estrelas: inferno, purga-
torio, paradiso. soluçam sílabas
limbas: homero, lucano, virgílio.

o velho sábio cantaria outra só
estrela, movência.

sexta-feira, julho 21, 2006

estar à margem


à margem -
tuta-e-meia -
para não so-
mar zeros
do rebanho.

sképsis

hiperbólica in-
genu-
idade do ho-
mem: colocar
a si mesmo
como
sentido e medida
de valor das
coisas.

am i blue?
nihil est
nihil est
est nihil

persona palavra

nietzsche: "cada palavra
uma máscara", brônzea,
a mortuária do rei, olho-
de-cão, agamêmnon, a
ira - ménis - pode a
musa celebrar, da dor-
do-povo, cada palavra
esconde o escudo pessoal
persona do herói, discurso,
pharmákon: cego que vê.

cada máscara uma palavra:
mote a mote, a presença
silenciosa dos volteios dos
retornos. vontade, só-
sobram palavras, mots,
words, words, words =
hamlet em sua loucura
de máscara elisabetana.

§ cada uma máscara, palavra
devolvo-me ao ventre, vento
de poros em que naufrago,
vendo-me como cada uma
palavra, máscara. tudo bronze.

acalanto

dorme, dorme
arazona a noite
como um pássaro
funesto.

dorme, dorme
àquele que ainda
mais, ainda,
não há.

dorme, dorme
fez-se silêncio -
através da porta -
como salto.

dorme, dorme
leito perfumado
de madrepérola,
velas e coerção.

dorme, dorme
sem mais poder
dorme, dorme
aquele aquela.

caravaggio e os avessos


com são
pedro ao
contrário,
crucificado:

todo oscuro,
noite trevosa
poliflui.

esperança?


des-
espero
a escrita
estrita
sobre a mesa.

devaneio (2)

ver a terra toda nudez
vir da terra toda brancuz
vem, tédio, soluço dos fracos.

aristóteles e homero



rembrandt centelha
um punhado de lume
na cegueira do filósofo
e na clarivisão do poeta

rembrandt tudo vê sem
ter-lhe luz, mas apenas
negro, gris e ouro:
perfurados olhos.

rembrandt pousa a mão

aristotélica do não-contra-
dito, pousa uma descrição
em mudez, em melós, olh-
ando o infinito do escuro,
no lauri-claro da razão.

impotência

mesmo que tenha
nietzsche refletido
cercanias da vontade

- movência do homem
potência do ente, eter-
na volta torna refaz -

sinto a impotência
da palavra, do trab-
alho, do respiro:

decepção, missa,
mesmo que tenha
refletido.

palavras cantadas

de zeus e mnemosyne:

calliope, clio, euterpe
terpsichore, erato, melpomene
thalia, polyhymnia, urania

poesia épica - história
música e poesia lírica - dança do coral e canção
poesia erótica e mímica - tragédia
comédia - hino sagrado
astronomia


mesclam-se todas
em um lance ao acaso
az-zahr: flor sem buquê,
dado árabe lançado.

beatrice - laura - inês -
nise - marília - dulcineia -
ofélia - andrômaca - moly -
emma - capitu - ângela -
fabricia.

ao acaso: representam -
assentadas como madonnas -
o amaro amor.

devaneio

“não é nada que se diga com um nome”
Herberto Hélder

nada se
diz
com
nome:

tudo nome
nada é não
que - nisso -
ça - là où -
à ce que.

cogito
ergo
sum.

ontologia - poemas para acabar com tudo

não se diferem
antologia e onto-
logia, apenas há,
nestes, a descren-
ça: o que não pode ser
pensado.

segue uma ontologia:

CORONA

Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.

Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo retorna à casca.
No espelho é domingo,

no sonho se dorme,
a boca não mente.
Meu olho desce ao sexo da amada:

olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio sangrento da lua.
Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:

já é tempo de saber!
Tempo da pedra dispor-se a florescer,
de um coração palpitar pelo inquieto,
É tempo do tempo ser. É tempo.

Paul Celan


E ASSIM EM NÍNIVE

"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba

Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.
"Veja! não cabe a mim

Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.
"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto

Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."

Ezra Pound


DE PROFUNDIS

Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.

Há uma árvore marrom;ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer
Passando pela aldeia

A terra órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.
Na volta

Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.
Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.

O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.
Na minha testa pisa metal frio

Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.
À noite encontrei-me num pântano,

Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.

Georg Trakl

DESTINO DO POETA

Palavras? Sim. De ar

e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.

Octavio Paz


Abro as veias: irreprimível,

Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.
Pelas bordas - à margem -

Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vaza a poesia.

Marina Tsvetaeva

quinta-feira, julho 20, 2006

hermes

hermes esculpido
- fídias resolve -
em que a tradição
cristiana - sobrevôo
de santas e triangul-
ação.

hermes: intermédio
de deuses e andros.
anér, édipo - a lou-
cura do nome, do
olho cego sem-
tome.

hermes, castrado.
restam apenas
vasos, nada
mais - xô
corvo.

quarta-feira, julho 19, 2006

arseni tarkovski, traduzido do inglês

sonhei este sonho e ainda o sonho
e o sonharei novamente outra vez.
tudo se repete e tudo reencarnaria,
a meus sonhos seriam seus sonhos.

há, para uma parte de nós, para uma parte do mundo.
onda após onda quebra na orla:
há uma estrela na onda, e um homem, e um pássaro,
realmente e sonhos e morte – onda pós onda.

datas são irrelevantes. fui, sou, serei.
vida é um milagre de milagres, e me ajoelho
sozinho ante o milagre como um órfão,
sozinho nos espelhos, circundado pelos reflexos,
mares e cidades, brilhando luminosamente entre a fumaça.
uma mãe chora e segura seu bebê em seus joelhos.

arseny tarkovsky

em Santa Catherina in Bagno Vignoni

a vela sempi-
acesa.

domenico,
ode à alegria,

em chamas
entre estátuas.

gortchakov não
traduz -

induz a quebra
fronteiriça

entre seus prazeres -
Pavel Sosnovsky -

e a poça d'água
que reflete o

coellum.

nostalgia e memória

andrei caminha
- toscania -
eugenia e o capelão:

piero della francesca:
madonna dos nascimentos

pele de parede
- rugas -
decai o véu.

para mim, já basta.

sophia (1)

com seu gesto,
de pêlo hábil,
ela salta sobre
os livros, libert-
ando a noção
de espaço.

o móbile, const-
ante, ainda a sobre-
voa, mas, quem sa-
be, pupilas variadas,
vai tombar.