quarta-feira, abril 08, 2009

pau casals


corrente, entre cordas,
o som de silêncios graves,
canto de pássaros seus
restos rebatizam-se em
ventrell - ossos e ocells -
no ar de muitos vazios.
faz, por isso, cantar ao
que elege, d. sebastião,
sobre o tirso da madeira
talhada - aleja as fôrmas -
em que retornam teu presé-
pio de sons, sãos e cercanias.
o que se ouve calar nesses
paus que gemem? o que se
casa, em ais? sustém, aos olhos,
um ainda sentido ouvido e
me cala como pomo nos lábios,
narcisos brotando, abril.

terça-feira, abril 07, 2009

de repente


entre o que escrevo e falo,
as possíveis mãos ainda em
movência: experiências do
silêncio e do rastro, gasto.

cuidas do retorno que é, ele
também, lembrança do lar.
às mãos, cala o tempo noutra
noite, noutros ramos e flores.

sábado, abril 04, 2009

νέκυια


desce à casa, em fogo,
materna para ao fim
gozar de glórias, tristes,
frente à desfigurada face
da dor do povo.

preza, com isso, à toda
fronte - em fruto e flor -
que se conluia em cedro
pó e flama. às marcas,
tecidas, todas, permanecem.

hermes guiando os espectros,
gast de um hóspede,
conduz a paralaxe do
momento - lembra ainda,
fronte a todo tempo,
gasta - joelhos e mãos
sobre espinhos do pai -
no que não converte,
no que não se mantém.
precede assim o gosto
da morte - que não sendo
glória - mancha a mortalha,
essa também escrita.

quinta-feira, abril 02, 2009

ante a realidade


freme, boca vazia.
aos cálculos gris:
calêndulas, ouro e pó.

barba, bisão: falanges.
o homem tece o destino
do homem, que ouve.

à margem, os sabores
soam como flames:
refugiada manhã e sol.

quarta-feira, abril 01, 2009

arco, vida e lira (após heráclito)



tudo cala, nas horas de delfos,
frente ao tenso ar, que é vida,
e à morada de louros, corda e
cor, onde tudo cansa e canta:
vozeio ambíguo do tempo, ente.

tudo fala, nos dias em delfos,
atrás da máscara, que é lira,
e à travessia do homem, mar e
mazurca, em qual falange ou
gárgula, além do tempo, ser.

do mote drummondiano, memória e espéculo



rastejando o dia, como horas,
solfejam cinzas que já são pele
e nácar de rosas esculpidas.

calham-se, em pedra polida,
as fôrmas dissolutas do ritmo,
da voz: gorjeio de rastros, vôos.

intempérie e cristal, fonte gasta,
cisnes oscilam a retração, reflexo,
lembra a dança – tália – num elo só.

palavra põe à boca, fornalha dentada,
um tempo de memórias, riscos feitos
à mão do tempo, em um hoje, repleto.

memórias e aparências a partir de drummond


não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.

(carlos drummond de andrade)

segunda-feira, março 30, 2009

vida das palavras


silencias, ao som de ondas
e mexilhões, um corte - avil-
tado - nas nódas da memória:
na palavra, grisnevoando-se,
não cabe - o real - latências
de sobrevida. silêncio, o coro
cora ao adentrar, rododendros,
fazendo calar um ano, o palco
todo cego, negro óleo: tudo
só, abandono. silencias, ao
saber cálido de queijos, moro-
sas entranhas ao que calas.
mas um voz ainda perturba:
ter, em silêncio, que ouvir
sua própria língua.

sexta-feira, março 27, 2009

babel de doré


às mãos erguidas, a língua,
toda una, demove-se.
em variadas formas, ouve-se
ninguém ressoando: outis.
odisseu, fruto da sublime
canção de sereia, subleva-se.
ato e narrado: fôrmas da palavra,
bavelizando-se em um não dito.
concluio hespérico de cera e ar:
às cordas gastas, poderia naufragar.
sombras e táteis cerimônias,
o choro do herói, o canto silencia.
doré traçando gastos sortilégios
da palavra, sedução, hospeda-se.
o cimo toca o céu, às mãos do deus
sem nome, próprio nome, a língua
clama um ninguém, desértico, e
tomba.

ܕܵܪܘܲܐܙܲܐ ܕܥܵܐܫܬܲܪ



eu, em fonte ou vinha,

do pólen fremido às

horas de véspera, prenho

de grãos, ventos corruscados;

por ovas, aos corpos translu-

zentes: zôagría, à vida pede

peso, balança. ishtar banhada

em pedras de vidro, leões:

turquesas.


do eu que dali nasce brota

flor e cedro, às portas, imagens

e procissões: rememoração

dos princípios, da babélica

babilônia de outros deuses.

quinta-feira, março 26, 2009

apoteose de homero






arquelau espaça em mármore
a duração glauca do dáctilo:
a ira e o homem, entre os deuses.

glosa ao mote borgiano


lasso laço à forma do ver,
o que em mim nasce, des-
folha - em nada reparte -
mantém-se por viés.


lastro, tudo à beira, à
mágoa. nulificam tempos,
húmus plurais: ao que já
não era e que cá se vai.

lastra, à fonte nova, não
há perjuro - percurso -
tudo torna a ser, frequência:
fuligem amara, magenta, vir.

lassu tudo ainda percorre,
aos paradoxos, aos castelos,
meta de uma meta de fim:
transcreve a história, uni-
córdia, tapete ao grão vizir.

precursores

Borges disse, à maneira de mote:

“El hecho es que cada escritor crea a sus precursores. Su labor modifica nuestra concepción del pasado, como ha de modificar el futuro. En esta correlación nada importa la identidad o la pluralidad de los hombres."

quarta-feira, março 25, 2009

passeio, vistos à margem



voz ante voz:
calhada figura

uma dança sob
plátanos

a estrita escrita
anterior

hospeda-se um
perjuro

da imagem

terça-feira, março 24, 2009

maria flor


jaboti
acaba de nascer,
aos olhos doutra
negritude, ônix.

traz,
alegre, corada,
uns olhares
ainda ristes.

aos jardins,
em que povoa
toma, à sede,
nas mãos
o mundo, em
mudecidas
palavras.

fulgor gorjeado,
ao que tudo brinca,
canta e
cala
s u a v i d a d e
carmim.

safo parecendo-se...


ademais

o que se lê aos burgos
metaformoseia-se,
píramo tornado amora
tisbe suplicante em sombra.

cala o às vezes,

noturnos

memória

ainda, dos traços,
arranco, dum tranco,
os óleos do dia

ontem ainda, há,
de um só tempo,
margeando áloe

manhã, ainda dói,
corrompe os dias,
dum monte, assalto.

aprendendo poesia com oswald

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi

retorno

entorno, frente à vida,
um desses outros, muitos,
copos de sua
avidez.

poeira leve, à casa dela
torno - outro nome
para ninguém,
nenhuma.

paragem marfim,
destelho as estrelas
soluçando: acende,
lidando.

maura manhã,
mútuo, mourisco.