quarta-feira, julho 19, 2006

memória (1)


desfaz-se a memória
de novo - retorno:
beija-flor no dedo
de madeira e tinta
ébano:
o pássaro hors de
todo
buquê: vino rojo.

ofício de poeta


olho como um
olho melan-
cólico, mas
ainda - um
corpo ao chão -
atiro másc'ras
álacres de sor-
ôco.

queria lamber,
com os olhos,
o soluço das an-
águas - como que
vendo ossanha
assanhando as
pernas de vento
e ondeado.

caminho na tér-
mica banheira,
vela acesa, apaga:
qual velho dome-
nico salteava a
esguia eugênia.
apenas um.

(depois de nostalgia)

vinte filmes para construir um poeta

01. tarkovski, "nostalgia"
02. tarkovski, "o sacrifício"
03. herzog, "o enigma de kaspar hauser"
04. fellini, "8 e meio"
05. fellini, "julieta dos espíritos"
06. pasolini, "teorema"
07. bergman, "persona"
08. bergman, "gritos e sussurros"
09. bergman, "a trilogia do silêncio"
10. bergman, "a fonte da donzela"
11. buñuel, "o anjo exterminador"
12. buñuel, "um cão andaluz"
13. clair, "entr'acte"
14. cocteau, "o sangue de um poeta"
15. kurosawa, "sonhos"
16. rocha, "deus e o diabo na terra do sol"
17. bertoluci, "assédio"
18. godard, "o desprezo"
19. resnais, "hiroshima mon amour"
20. wenders, "asas do desejo"

távola chinesa by pound



vê como a cabeça rabo-abano
ligeira responde a sua rabada!

(...)

decessos e desvarios outros,
mei centavo e troco claro,
alguns homens, hélas! seus irmão passam
la chair est triste, hélas! et j'ai lu tous les livres
nem neles como amigos podem suster.

The wanderer

Oft ic sceolde ana
uhtna gehwylce
mine ceare cwiþan.
Nis nu cwicra nan
þe ic him modsefan
minne durre
sweotule asecgan.


sempre estava só
em falar meu óbice
manhã antes de amanhecer.
agora nada vive
em quem ouse
falar claramente
meus imos pensamentos.

terça-feira, julho 18, 2006

vinte músicas para construir um poeta


01. bach, "arte da fuga"
02. bach, "sonatas para violino"
03. boulez, "pli selon pli"
04. schoenberg, "verklarte nacht"
05. vivaldi, "l'estro armonico"
06. chico, "sinhazinha"
07. villa-lobos, "bachianas"
08. beethoven, "quartetos finais"
09. wagner, "tristan und isolde"
10. wagner, "die walküre"
11. troubadours (qualquer)
12. cantigas de santa maria
13. pound, "le testament"
14. debussy, "prélude pour l'après-midi d'un faune"
15. pärt, "fratres"
16. bach, "suites para violoncelo"
17. webern, "op. 31"
18. mozart, "requiem"
19. bartók, "quartetos de cordas"
20. orff, "catuliana" ou bach, "paixão segundo joão"

aidos


um aedo canta
em sonho -

até a noite (estr-
ela indo além) -


áulicos sons

melo-

odiosos -

que sons são

estes?

na noite, um

noturno - nachtlied -

soa, soa, sua o corpo

em pó, pólvora, nada.

segunda-feira, julho 17, 2006

concreta mélica


concreto, plan(t)o
às verdes (h)eras
do tempo, no espaço
colhido de letra: lito-
ral da palavra.

sem ter-se concreto
a asa voa como um
golpe em da(r)dos
lançados - entrópicos -
de cidade, city, cité.

concretos: nascer,
morre, nasce, renas-
cesserait le hasard:
fome de forma

fome de tudo.

domingo, julho 16, 2006

apáneuthe kión
apáneuthe theôn
apáneuthe neôn

sons:
naus-deus-ir
à parte

ditirambos nietzschianos

Letzter Wille
So sterben,
wie ich ihn einst sterben sah -,
den Freund, der Blitze und Blicke
göttlich in meine dunkle Jugend warf.
Muthwillig und tief,
in der Schlacht ein Tänzer -,
unter Kriegern der Heiterste,
unter Siegern der Schwerste,
auf seinem Schicksal ein Schicksal stehend,
hart, nachdenklich, vordenklich –:
erzitternd darob, dass er siegte,
jauchzend darüber, dass er sterbend siegte – :
befehlend, indem er starb
- und er befahl, dass man vernichte...
So sterben,
wie ich ihn einst sterben sah:
siegend, vernichtend ...

Friedrich Nietzsche
Vontade Última

Assim morrer,
como um dia o vi morrer,
ao amigo que relâmpagos e relances
divino em mim lançou obscura juventude.
Malcriado e profundo,
na batalha um dançarino;

entre os lutadores o mais risonho,
entre os vencedores o mais vistoso,
erigindo sobre destino um destino,
harto, meditabundo, premeditável –:

estremecendo-se pois, que vencia,
exultante pois, que morrendo vencia –:

ordenando enquanto morria
– e ordenava, que se aniquilasse...
Assim morrer,
Como o vi outrora morrer
vencendo, aniquilando...
piero eyben

reviver vico


"será que ela é moça?"
via vico: análogo-ironia
lógos, lógos, lógica; palavra.

louça ou éter: beatrice in
coellum

homero: lógica do arcaico
povo grego (akhilléus) -
há um homero,
várias são as lógicas.

descarta o método
silencia nova
mente

renga no canto 117

i lost my center
perco semelhante mente o x.
fighting the world.

luto no mundo, ao mudo.
the dreams clash
colapso de som-nhô.

and are shattered
exaurido estão e é.

- and that I tried to make a paradiso terrestre.
dal centro al cerchio, e sì dal cerchio al centro
movesi l'acqua in un ritondo vaso,
secondo ch'è percosso fuori o dentro:

ez pound


ez vencido
pêlo cansaço

as rugas de
tecido ainda
mostram suas
fôrmas: quadro
emoldura um
corte ao meio -
make it new:
the light now, not fo the sun
i have eaten the flame -
troubadours
espantam o tédio

afora-ismos

Negar o mérito, mas fazer o que está por cima de todo aplauso, incluído por cima de toda compreensão.

Todos os ideais são perigosos porque rebaixam, estigmatizam o real, todos são venenos, mas imprescindíveis como remédio provisório

La bêtise n'est pas mon fort

PODERÍAMOS NIETZCHEANA OU

TESTIANAMENTE CONDUZIR-NOS

AO (D)EFEITO DA FEIÇÃO - COMO

FAISÕES, DORMIMOS CALADOS COM

OLHOS RAPACES - PELA CARNE DOS

AINDA AQUEUS, AINDA REGIDOS POR

OLHOS-DE-CÃO: JOSEPH K. SE HÁ CUL-

PAI-NOS.

homero e eu



ménis não,
litoral. ez-
tranho re-
goz-
o

retrospecto


queria tentar um retrospecto:
como fazer com que leiam ho-
mero? em que tudo ali em-si-
cena algo.

queria tentar um retrospecto:
como fazer ler homerós? quer-
o fazer cena como tudo no al-
go, lovely rose.

queria tentar um retrospecto:
como homère possível? repete
o fazer-se na rosa amada de go
ao remar contra.

queria tentar um retrospecto:
como leitura homer? releiam
no busto, apenas tudo expos-
tô, em mármore cego.

queria tentar um retrospecto:
homero! o mar ainda violeta,
rósea dactilo aurora, fecha o
mar, em uma batalha: reading

park - queria que fossemos um
cárcere.

ano grego: fora com sócrates.

sábado, julho 15, 2006

arte em fuga


quando se termina -
arte em fuga -
há uma suspensão
ou angústia?

gleen gould: repete,
repete. em cordas,
também interessa,
mas e a suspensão
ou a angústia?

bach: incansável

alívio (gutural)

vinte poemas para construir um poeta

01. mallarmé, "un coup de dés"
02. homero, "ilíada"
03. pound, "the cantos"
04. joão cabral, "o cão sem plumas"
05. arnaut, "l'aura amara"
06. dante, "commedia"
07. "the seafarer"
08. safo, "hino a afrodite"
09. huidobro, "altazor"
10. hopkins, "the wreck of the deutschland"
11. rimbaud, "le bateau ivre"
12. maiakovski, "a sierguéi iessiênin"
13. eliot, "the waste land"
14. villon, "le testament"
15. goethe, "wandrers nachtlied"
16. shakespeare, "monólogo de macbeth"
17. guido, "donna mi priegha"
18. góngora, "mientras por competir con tu cabello"
19. poe, "the raven"
20. ovídio, "as metamorfoses"

réquiem para camões

requiem aeternam
repousa lentamente,
resto de riso e palavra.
repousa eternamente,
recusas d'alvorada.

no rio mekong, aquele
texto poderia ter deixado
a vida da donna - mhia senhal -
mas antes perder um olho
ao peito ilustre: o rei, jovem,
ainda viria a ser um nada-tudo.

vênus perpétua: moçamba, quíloa,
goa, melinde, tormentas, calicute.
torna a lisboa - ulíssona - e o vasco
passa além de belém.

no restelo, hoje habita um padrão:
todo pedra que apenas lembra a
campanha dos amores. hoje, camoens,
passa muito além do pórtico-belém ou
dos jerônimos: rubens chiaroscuro.

repousa, oitava rima, o repouso eterno
de agora - teu manuscrito uma ágora -
em que tuas tágides revistam-se de luso
luto: sem-túmulo, por não poder, pois
imortal é a letra tua do verso teu
que os corações humanos tanto obriga

vinte teorias para construir um poeta

01. mallarmé, "crise do verso"
02. pound, "the spirit of romance"
03. joão cabral, "poesia e composição"
04. poe, "filosofia da composição"
05. gracián, "agudeza e arte de engenho"
06. aristóteles, "poética"
07. haroldo, "arte no horizonte do provável"
08. valéry, "poesia e pensamento abstrato"
09. spina, "na madrugada das formas poéticas"
10. octavio paz, "el arco y la lira"
11. heidegger, "a caminho da linguagem"
12. derrida, "che cos'è la poesia"
13. meschonic, "pour la poétique"
14. jakobson, "dois aspectos de linguagem e dois tipos de afasia"
15. borges, "esse ofício do verso"
16. bense, "estética abstrata"
17. goethe, "poesia e verdade"
18. eliot, "a música da poesia"
19. poe, "eureka"
20. pound, "abc of reading"