quarta-feira, fevereiro 17, 2010

como se projeta um espanador


Nunca acreditei nessa história, sempre comentada entre os docentes, das instituições privadas de ensino “superior” serem apenas máquinas de produzir dinheiro, sem nenhuma preocupação maior. Nunca acreditei nisso, pois consegui trabalhar, durante um tempo razoável, a formação de 4 turmas inteiras com compromisso de quem acredita. Aliás, essa é uma palavra estranha! Acreditar é um verbo que possui duas possíveis interpretações: uma demasiadamente esotérico-religiosa, de crer em algo ou alguém, em um sentido maior; outra que mais molda aqui, de dar crédito a, conferir credibilidade e estar em crédito com. Todo crédito se constrói no sentido da confiança depositada – mais um termo econômico – que entre docente e aluno se faz com apenas as diversas realizações conjuntas, no âmbito da sala, do corredor, da biblioteca.
Construir um projeto comum, em uma instituição privada, sempre foi visto como inexperiência, ou melhor, ingenuidade. Mantive-me ingênuo. E, claro, com grande parte da ingenuidade, mantive-me no erro de dar crédito – em todos os sentidos que essa palavra possa ter aqui – às instituições. A falência dessa crença – ou do crédito – fere tudo aquilo que se possa vislumbrar como projeção a um futuro. O discurso se desarticula, é desarticulado por poderes de execução, por “pessoas”-corporações que não vão nunca entender o real motivo de se estar ali, construindo um projeto. Falir é destituir-se completamente daquilo que foi almejado. É espanar para fora a poeira simplória e nada eloqüente que (de quem) não teve a chance de tornar-se o incômodo da terra, da teia de aranha, do encardido.
Há uma conjectura possível aqui: nada se faz pelo bem do outro. Não há instituição, que se pague, na qual se possa de fato ter uma ação filantrópica. O movimento da amizade ao homem – que está nessa palavra – não é um espaço conhecido por executivos de qualquer casta. Talvez a decisão dos governos em não se considerar instituições de ensino como entidades filantrópicas tenha sido uma das melhores formas de mostrar que eu estava errado, que a ingenuidade não pode oferecer crédito. Afinal, não elas nunca saberão quem é esse outro. O outro é e está muito distante das mantenedoras que apenas querem espanar para uma mística de mercado e, ali, conseguir números e desempenho, em outras palavras, máscaras e encenação.
Durante todo o tempo de meu ensino, estive atento a não fazer do esforço de cada aluno uma atividade vã ou obsoleta, e nisso não estive ingênuo. Mas agora, com a prisão das carteiras, o máximo da crença e do crédito se estará projetado no fabrico de peças ao pó, a e-mails desperdiçados, a falsos sorrisos de transição. Sob o véu de um maior profissionalismo, de uma melhor propaganda, se escondem a punhalada, o susto no escuro, a negação à formação, o escrutínio com o parasita. Não há mais hospitalidade, recebimento involuntário e ameno, há apenas mais e mais possibilidades de negócio, trama, embuste. Isso porque não há, não pode haver, naturalidade na troca indiscriminada de todo um corpo sem que o mesmo não parecesse um Frankenstein sem saúde, um dr. Jekyll sem a parte diurna. Há, por pena, conceitos de gestão.
Vendido, o objeto lançado à frente tem marca. O que se pode comprar. Aquilo que se adquire. Condução e sustentabilidade, palavras boas para um novo projeto, mas o que se produz? Créditos para a compra de um novo espanador.

6 comentários:

amcm49 disse...

Professor Piero,
Como eu havia comentado com o senhor, coloquei seu artigo "como se projeta um espanador" em meu blog, se o senhor quiser conferir, meu endereço é blogdangela.blogspot.com, seria muito honroso para mim, só não seja muito exigente, estou começando, ainda sou (e acredito que sempre serei) apenas uma sua aluna). Acrescento apenas que o achei muito bom mesmo, os trocadilhos estão perfeitos.
Ângela

olimpia disse...

Piero, que artigo lúcido!
Adorei o tema.

Lisieux disse...

Como sempre, muito bom!
Não sei se devo me sentir feliz ou infeliz por não ter a dita ingenuidade...
Antes que o mau tempo chegasse até mim, corri e consegui um lugar um pouco mais seguro. Sinto muito por todos os outros, sinto muito mesmo!
No entanto querido professor, preciso dizer que se não fosse sua ingenuidade e de sua queridíssima esposa, eu talvez teria demorado um pouco mais para conhecer, respeitar e amar as Letras.
Espero vê-los sempre que possível, tenho-lhes enorme carinho e admiração.
Nos vemos na UnB!
Abraços,
Lisieux

thyally disse...

Ótimo texto, de fato é realmente triste toda essa mudança e, apesar de estar de saída sinto muito pelos que ficam e agradeço a ti pelo tempo que ficou conosco e ainda que com ingenuidade ou sem ela, foi um excelente mestre sem o qual não teria o conhecimento de hoje.
Espero vê-lo em breve na nova instituição.
Abraço,
Thyally Louyse.

Tallita Fernandes disse...

Sinto saudade das sua aulas professor.
Digo de coração que se não fosse por sua ingenuidade eu não amaria tanto “as Letras” como amo hoje.
Sinceramente sinto vontade de chorar com toda essa história, porque não foi apenas uma mudança em partes administrativas da instituição, mas foi uma desconstrução de tudo que, não só você, mas todos os professores ingênuos da ESPAM construíram ao longo desses anos.
Professor, queria agradecer por fazer com que muitas pessoas percebessem que ao escolher Letras, não apenas escolheram um curso, mas um estilo de vida.
Espero ser sua aluna novamente.
Abraços,
Tallita Fernandes.

Jesse disse...

Doutor Piero,
Todo sonho "parece" ser ingênuo. Quando perece o sonho finda-se a ingenuidade. Fico grato por este sonho ingênuo, pois tive grande lucro com ele. Não ainda materiais, mas, lucro vital, que sempre me acompanharão. Sinto que fui contemplado, assim como muitos. Apesar de ter estudado em uma instituição privada, tive os melhores professores, não só por acúmulo de conhecimento, mas por lucidez, sonho, ingenuidade, responsabilidade, respeito, crença-religiosa, já que a outra é só econômica. O Espanador???? Só espana o que é exterior, não espana sonhos. É difícil eu admirar alguém, mas, escrevi isso com carinho, gratidão e admiração por você e outros professores que tive. (Não deixe que o título "Dr." espane sua ingenuidade), abço
Jessé Cardoso