terça-feira, março 31, 2015

Os espúrios (desde a diminuição da maioridade penal)



Piero Eyben




Nota triste, forma triste. A declaração de constitucionalidade na discussão acerca da redução da maioridade penal definida hoje na Comissão da Câmara abre o caminho da barbárie e segue na contramão das exigências mais centrais e importantes que precisaríamos tomar na atual conjuntura político-policialesca do país. Desde o momento em que nos vimos fraturados na representação por mais direitos, é aí que a forma mais escabrosa de “política” mostrou-se e resolveu sair em busca de “seus direitos” (que no fundo representam a manutenção do exclusivismo de elites, classes e castas). O horror deste momento se iguala, em muito, ao que estamos tentando dizer da inércia dos intelectuais (ditos de esquerda) em propor discussões que estejam além dos velhos binarismos (corrupção/não-corrupção, PSDB/PT, golpe/manifestação, democracia/totalitarismo, massa/elite). Digo isso porque muitos desses representantes que poderiam, de fato, contribuir para o debate sobre MAIS DIREITOS, se abstêm para simplesmente fazer críticas ao modo de governabilidade que o PT tem implementado – o que precisa, é claro, ser criticado e duramente criticado, mas que perdemos força quando se trata, por exemplo, de unir movimentos sociais que são contrários à instalação do crime pelo Estado, como é o caso evidente dessa proposta da PEC 171/93.

O papel agora (talvez como nunca) do intelectual é unir-se aos manifestantes. Sermos uma massa contrária a subtração de direitos, que, evidentemente, só atingirá os ainda mais pobres, os negros, os sem assistência do Estado, em uma limpeza étnico-racial-e-de-classe. A proposta de desmilitarizar a Polícia Militar, parte crucial para uma vida possível, agora parece estar ainda mais longe, ainda mais assombrada pelo poder coercitivo e correcional que esses deputados pensam ter (e, pior, responder a) sobre população. Nossa discussão, que tem se rendido sempre ainda aos apelos da grande mídia, deveria talvez desviar-se para um outro nível, deixando de lado as implicações de fundo apenas eleitoreiro ou pior de uma rixa por territórios de poder acadêmico (como supreendentemente alguns apresentaram “argumentos” contrários à nomeação de Janine para o MEC). Perdemos e nos perdemos. Dizer convenientemente apenas sobre a Lava Jato – quando há a Zelotes, o HSBC. Dizer-se convenientemente contrário ao novo ministro por seu papel na CAPES ou por simplesmente pertencer a essa ou aquela universidade (ou forma do pensamento), é nos perder e deixar que percamos todo e qualquer embate por direitos democráticos.

Estamos, sem dúvida, em um espaço de crise representativa, em um espaço onde nossos corpos não mais aguentam os ideários da República re-formada após a Ditadura. A necessidade da Reforma Política é urgente, assim como é urgente a garantia de direito à vida (e o prosseguimento dela, sua sobrevivência, no sentido grave). Seguimos na dura dimensão da legalidade e do direito, de sua calculabilidade macabra, e esquecemos da justiça e do outro, ali diante de nós. Diante dessa aprovação pelos espúrios, toda e qualquer discussão torna-se ela também espúria, pois perdemos e continuaremos ainda a perder. Vale a dupla citação de Drummond: primeiro, talvez, precisemos de “entre as ruínas / outros homens surjam*, a face negra de pó e de pólvora” e, ainda mais, a constatação de que “Ganhei (perdi) meu dia. / E baixa a coisa fria / também chamada noite, e o frio ao frio / em bruma se entrelaça, num suspiro”.

Às ruas, ao congresso, talvez para ganharmos o dia, entre as ruínas de hoje, entre os espúrios que nos tornamos.


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* alterei o verbo para o texto. No original é “surgem”.
** foto Ike Bittencourt

domingo, março 15, 2015

o 13, o 15




Piero Eyben


Desde as eleições de 2014, estou ao lado de proposições progressistas, à esquerda, que representa o governo do Partido dos Trabalhadores. Nunca me furtei em me declarar explicitamente como favorável à recondução de Dilma ao Planalto, nem às críticas necessárias ao modelo que ela mesma implementou no começo ainda de seu primeiro mandato. Os mais próximos a mim sabem que até mais ou menos o mês de agosto/setembro do ano passado, estive em uma dimensão de crítica tremenda ao que Dilma fazia com o país sobretudo na permissibilidade do Estado de Exceção, no tocante ao poder militaresco, à forma com que, de modo um tanto irresponsável, tratou assuntos de direitos humanos, o esquecimento dos indígenas e da continuidade da reforma agrária no país. Tudo isso me angustiava muito e cheguei a dizer que não faria campanha à presidência, se fosse Dilma a concorrer. Quando começaram-se as especulações e o movimento da parcela mais reacionária da política brasileira, pensei não haver outra solução senão me engajar completamente na campanha da presidenta, o que se agravou imensamente com a morte do candidato que, por certo, confirmaria sem muitos esforços em um provável 2o turno a continuidade do projeto popular.
As eleições foram fortes em embates, em redes, em comícios, em reuniões, em manifestações e passeatas para tentarmos reafirmar a necessidade de continuidade de uma frente popular que, apesar de estar longe dos ideais comunistas (bolivarianos, como muitos querem crer), está muitíssimo preocupada com a distribuição de renda, com a ascensão de classes, com a justiça social, com o emprego. O governo Dilma representa um governo absolutamente moderado em termos de políticas de esquerda e, em largo espectro, parece-me muito com aquilo que hoje representa grande parte dos que lá estavam hoje. Para além, da questão histórica e canalha que existe na escolha da data de 15 de março, os dois números das últimas manifestações representam os partidos que estão no poder e que têm uma tendência complicada de engolir a se equipararem, a se identificarem. Talvez pelo tamanho desproporcional que tomaram, o 13 de Dilma e o 15 de Temer são, hoje, uma parcela que representa um problema que está, como bem disse Safatle, na falência da nova república, no fracasso do modelo de governabilidade.
Em Brasília, sempre estivemos em lados opostos, os 15 e os 13. Sempre. O PMDB e o PT eram até a penúltima eleição inimigos públicos. Azul e vermelho. Caprichoso e garantido. Custei muito a aceitar empunhar uma bandeira com o vice do PMDB, acreditando que isso nos levaria a uma situação como a que vemos hoje. Nessa luta, que em geral sempre saímos derrotados nas urnas, havia sempre uma forma que não se reduzia, um modo de operação que organizava o pensamento e a ação da militância para os momentos decisórios, para podermos com uma moral bastante diferente daquela dos que hoje foram às ruas mostrar que o caminho da inserção social era ainda o almejado. Bem, Brasília politicamente é uma grande farsa. Falo, evidentemente, de Brasília como parte da Federação e não como Capital da Nação. A farsa se monta com interesses muito espúrios e com um ideal de castas e classes como em nenhum lugar do mundo. Em sua divisão, Brasília é pensada como um acontecer para a sociedade que não suporta ver mazelas, pobreza. O Plano Piloto não é apenas uma ilha, é um poço. O medo da direita raivosa de Brasília tem a ver com esse poço, com o medo de serem invadidos pelos bolsões de pobreza que rodeiam o centro. O entorno do Distrito Federal é um dos lugares mais violentos do país, meio sem lei nem dono, entre Goiás e o DF não há jurisdição. A taxa de assassinatos ali é a segunda mais alta do país. Mas como disse, custei a erguer a bandeira porque acredito que as bandeiras que guiam o PT ainda são bandeiras poderosas e que podem transformar. O contrário ocorre com o PMDB, por seu caráter parcimonioso e sempre indigesto de “fazer política”, de envolver-se ali onde tudo o que é sujo está.
O Brasil de hoje tem muitos outros problemas para além daquilo que essa marcha pró-impeachment solicita. A derrubada da presidenta significa, agora mais claro do que nunca, apenas um revanchismo golpista que pretende destituir a moral de quem penosamente conseguiu minimamente distribuir renda, elevar a qualidade social, colocar no cenário questões fundamentais de direitos, reverter o poder de consumo diante do capitalismo internacional. A demanda por impedimento da presidenta vem dos lugares mais abscônditos da sociedade de classes brasileira, aquela que é por si escravocrata, imperialista, violenta e exclusivista. Vejam como tratam, por exemplo, os outros casos de corrupção, como o HSBC, Furnas, SABESP, Metrô paulista. É preciso um silêncio absurdo sobre eles ou a casa toda cai. Nossos problemas de segurança pública, com números de guerra, é, evidentemente, um problema muito maior. Nossa falta de ética cotidiana, nas relações de trabalho, no modo como lidamos com o outro, é, sem dúvida, parte de uma corrupção também silenciada e muito mais problemática do que Dilma nos representando ou não.
De duas semanas pra cá, tenho pensado em como nossa presidenta procurou (e mesmo atiçou) essas manifestações contra ela. Não serei enfadonho apontando o que todos os críticos do governo apontam. Muitas delas verdadeiras, outras nem tanto, mas a grande mídia já as informou, as redes sociais já as viralizaram. Para mim, há outros motivos, mais profundos e ideológicos, na demanda por seu impedimento. Ela simplesmente em um governo mexeu com estruturas que comandam o país há décadas e séculos. Passo a listar: (1) instituiu uma Comissão Nacional da Verdade para pesquisar, rever, avaliar e emitir parecer sobre os crimes cometidos por militares durante a Ditadura; (2) mandou trocar em documentos oficiais a famosa ideia de uma “revolução de 64” (“a gloriosa”) pela mais correta de Golpe Militar, isso tocando documentação do Poder Executivo Federal; (3) manteve políticas de distribuição de renda iniciadas por Lula, construindo assim uma continuidade efetiva entre ela e aquele governo, considerado até pela grande mídia como o melhor que já houve; (4) propõe o combate a corrupção de forma imparcial, dando liberdade de investigação à Polícia Federal, sem engavetamentos; (5) propõe uma reforma política (isso como solução primeira às demandas das manifestações de junho 2013, através de plebiscito e participação popular – o que, é preciso dizer, não foi ouvido por ninguém!); (6) começa a falar em regulação e democratização das mídias; (7) fala e propõe a taxação de grandes fortunas, para cumprir a Constituição Federal; (8) torna crime contra a mulher hediondo; (9) propõe punir e tipificar os crimes de homofobia; (10) distribui casas, fazendo cumprir o direito à moradia; (11) investe em educação técnica e superior – embora com esses cortes para o ano de 2015 – de modo sistemático e com vias a uma transformação de longo prazo em nosso potencial formador, acadêmico e de pesquisa técnico-científica; (12) decide que os royalties do pré-sal será todo investido em educação e saúde, e não será vendido às empresas privadas.
No fundo, com todas essas razões, podemos crer que o golpismo à brasileira é até mesmo brando. Quando se pensa em tanta transformação histórica e ideológica, as classes dominantes em geral ficam ainda mais raivosas, odientas mesmo. E, enquanto as mídias oligárquicas falam de maior manifestação já existente no país, só posso pensar, como o pensou Derrida sobre o “September 11” (que me vem a mente porque um dos cartazes do protesto de hoje dizia literalmente: “obrigado PT pelo 11 de setembro”), que por mais que esse seja um major event, ele só o é porque representa a injunção daquilo que significa a própria dominação. Empiricamente, numericamente, ele pode ser o maior evento da história de manifestações no país – com certeza o mais midiatizado, de WhatsApp a TV –, contudo ele é sobretudo construído para dar a “impressão” que de os afetos estão todos jogados ali, que é um sentimento global, que as retóricas estão em acordo e são comunicadas entre todos os cidadãos. O evento maior nunca poderia ser um conjunto de populares, é preciso estar bem e usar filtro na foto. Como diz Derrida, a impressão passa a ser a “própria coisa” para que ela se torne o acontecimento em si. Trata-se de dispositivos comunicativos apenas. Dizer, como faz o jornal, que essa manifestação é contra o governo, datá-la e colocar um endereço como “Av. Paulista, Brasil” (é essa a manchete dessa noite no site UOL), é, por certo, esquecer todos os trabalhadores que por ali passam e transitam, é dizer que a Paulista é o modo que devemos nos portar. Como contraponto a isso, ouço a Deputada Jandira Feghali (PCdoB) dizer do seu belo projeto de uma mídia democrática em que as programações precisam ser regionais, locais e independentes, para que possamos ver a cara do brasileiro, não o sotaque paulistano ou carioca.
Diremos a partir de hoje que o problema da inflação é de outra ordem. Trata-se da inflação de elementos acreditados (na crença e no crédito). Quanto mais hiberbólico, maior o acontecimento. O que não está na mira daqueles que hoje foram às manifestações é o grau de inapropriabilidade de tudo o que ali ocorre. Como em muitos casos essa foi a primeira manifestação que participaram em suas vidas, eles não sabem ainda como lidar com as inúmeras contingências que dali saem. Cartazes com teor golpista, nazistas, fóbicos, classistas, elitistas têm potencial destrutor sobre quaisquer reivindicações que porventura venham a fazer. Para que esse seja considerado um evento maior, é preciso pensar em como um acontecimento participa de algo que não podemos compreender, que excede a compreensão, que ocorre, como diz Derrida, “ali onde a apropriação fracassa sobre uma fronteira”. Em larga medida, é por isso que dizemos – nós, à esquerda – que a direita não pode fazer o que faz, que ela não tem moral para isso. A direita não pensa que suas interpretações podem fracassar, que seu mundo pode estar às avessas. Isso simplesmente porque, para eles, ele nunca esteve.
Sem horizonte, agora, o governo sai fortalecido. Essa é minha conclusão de cara. Suásticas funcionaram uma vez, em geral não podem funcionar novamente. No entanto, para que essa força e vitória seja positiva ao governo é preciso muito trabalho e, sobretudo, uma tomada de partido – a retomada do Partido dos Trabalhadores em seus moldes anteriores – mais à esquerda, com propostas populares. Se vivemos uma crise econômica mundial – embora os EUA cresçam assombrosamente (e esse é um dos motivos para a alta do dólar) – precisamos de uma presidenta que nos faça crer, como fez Lula, que não seremos devastados, que todas as conquistas sociais não serão destruídas por um surto do capital especulativo. Que Dilma, a Dilma em que votei e votaria novamente, faça de imediato a reforma política, a regulação da mídia, a distribuição maciça de renda, que force ainda mais os investimentos em educação e saúde, que o pré-sal não seja tocado por essa maquinação contra a Petrobras, que o combate à corrupção seja implacável (mesmo nas pequeninas, do cotidiano, de cada um), que se continue gerando emprego e renda.
Ao contrário do que será noticiado, esse será um major event, não para os golpistas, mas para o próprio governo que pode, agora, assumir as rédeas de seu governo, para além de governabilidades. Trata-se de um acontecer de sentido qualitativo que não permita simplesmente fazer a democracia atentar contra si mesma, mas em uma marcha do tempo em que o 13 possa ainda, diante do passado, manter aberto o porvir.

Brasília, 15 de março de 2015.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Dilma, a democracia e o Estado: alguns silêncios





Piero Eyben

Nos últimos dias, aliás, desde as eleições presidenciais que tivemos no ano passado, reina entre os brasileiros midiatizados a sensação, colocada pelos “honestíssimos” jornalistas da Folha de SP, da Globo, da Editora Abril, do UOL, do PSDB e por aí vai, a onda desesperada para a retirada da Presidente da República e a cobrança sobre seus eleitores de uma postura (contrária, sempre) diante de escândalos igualmente midiatizados e bombasticamente preparados. As acusações são de todo nível. As cobranças ainda piores. Até o momento, no entanto, nada que atinja a presidenta nada que atinja o processo eleitoral nada que atinja a escolha da maioria dos brasileiros que votaram na realidade transformada do país. O nível dessa transformação pode e deve ser questionado, claro. Aliás, é de fundamental importância questioná-lo uma vez que a desigualdade ainda permanece, o anseio por mais e novos direitos nunca foram tão urgentes, ainda há fome e miséria no país, o índice “governabilidade” ainda é uma prática desastrosa no seio do governo (vide Kátia Abreu, Joaquim Levy, George Hilton, e ainda, a derrota na Câmara dos Deputados para um PMDB cada vez mais retrógado, dos mais obscuros recônditos da política suja e preconceituosa, personificado pelo agora Presidente da Casa). O índice de transformação também deve ser pensado de modo positivo dado o avanço em diferentes áreas em que as políticas sociais puderam fazer diferença, com todos os programas de Assistência Social e Distribuição de Renda, na geração de Empregos (que, aliás, é um dos índices aporéticos do Governo que tem a menor taxa de desemprego da história e ainda sim é apontado como em estado tendente à recessão, com a necessidade de medidas impopulares e cortes criados por essa tal governabilidade que tanto maltratada a ideologia de formação de um Estado com necessidades evidentes), na consolidação dos processos educacionais (que ainda não atingiram os números esperados, mas que o nível de investimento auxiliou nesses 12 anos uma transformação em curso, na formação docente, na distribuição de vagas nas Instituições de Ensino Federais, na procura por diversidade sócio-étnico-racial para uma esperada reviravolta nos saberes praticados por aqui).

Até hoje estive, como muitos eleitores de Dilma, em silêncio não porque tenha me arrependido ou me envergonhado de meu voto, como querem muitos. Estive calado por dois motivos: (1) não tenho tempo MESMO para essas picuinhas criadas por factoides de jornalecos ou de “políticos” apolíticos; (2) deixar que o barco siga o seu curso na história. Bem, penso que a hora não permite mais simplesmente se manter calado. O silêncio guarda aquilo que é a própria democracia – naquilo inclusive que ela tem de mais doentio: sua autodestruição. O direito democrático é um direito literário, como dizia Derrida, de tudo dizer e de nada dizer. Ali onde a possibilidade de calar-se é ainda uma possibilidade é que se instala o perigo do silêncio, do silenciamento, da opressão, da calúnia também. O poder democrático é um poder SEM, um poder negativo em que a não-restrição ao dizer implica a possibilidade de tudo dizer, inclusive o apoio ao que não é democrático, inclusive apontar para uma não-democracia, para o não reconhecimento da democracia. Como diz ainda Derrida, a democracia como tal simplesmente é impossível, ela está sempre por vir. O que temos aí é uma espécie de “democracia calculada”, de um espectro democrático que, no entanto, politiza pouco e emburrece muito. Temos aí uma democracia do direito, uma democracia de soberania e de poder que, no fundo, é sempre anti-democrática, autoritária e que, como diz Walter Benjamin, representa apenas uma “degenerescência do direito, da violência, da autoridade e do poder do direito”.  Não posso me privar de frequentar o impossível da democracia, naquilo que ela tem de porvir, naquilo que ela manifesta enquanto reenvio infinito à ideia de liberdade, aos princípios de uma tomada de decisão na tentativa não violenta diante do outro – de todo e qualquer outro.

O princípio regulador do Estado democrático tem na voz do povo, instituída por meio de eleições, no princípio representativo, portanto, sua força. Dupla força: de um lado, a força do povo contra os abusos do estado, da soberania, das classes; de outro, a força contrária, coercitiva, maledicente, imposta na razão do mais forte, nas simbologias dos opressores. Dupla violência, duplo direito. O sistema representativo mostra-se sempre limitado e limitador, sempre ao lado de interesses imediatos e mediados por formas espúrias daquilo que se costumou erroneamente chamar de política. Essa mediação nos é dada pelas fontes de “saber” de massa, que exercem real poder violento de Estado, da forma que sirva aos modos legados por grandes corporações, por 2 ou 3 % da população que controla o dinheiro. Essa regulação do sentido do Estado é extremamente perigosa e perversa, uma vez que, sob o pretexto de informar, vendem produtos. E o produto à venda no momento – ao menos para aqueles que citei mais acima – é a Petrobras. Importam pouco os dados e os vestígios que encontrará a Polícia Federal, a imprensa já deu sua sentença, que será repetida por cada casa, nos corredores dos supermercados, nos elevadores, nas conversas das “boas famílias brasileiras”. Não interessa que a lista de políticos que receberam propina ou se enriqueceram seja majoritariamente de partidos da OPOSIÇÃO ao Governo. Não interessa que o modo de operação ridículo da petroleira tenha começado no governo de Fernando Henrique Cardoso. Haverá sempre um diretor de “cinema” para ser contratado e realizar uma minissérie – com um excelente texto, diga-se de passagem – para simplesmente associar as formas de governo atuais com a de um sociopata ficcional ou com os costumes da “família” sendo degradados por relações que são consideradas demoníacas, assombrosas e dignas de punição moral. Eh, que o século XIX ainda nem passou por aqui! Tudo isso sob a égide da autoridade absoluta do direito democrático de tudo dizer, de tudo poder dizer, sem responsabilização.

Desde as eleições, venho defendendo que as formas de justiça social não deveriam mais se basear no ideal de igualdade. Esse é um conceito fraco, inócuo e ingênuo para dizer de uma real subversão que seria necessária para responder às demandas contemporâneas, às trevas do contemporâneo. A guinada mais à esquerda que o Partido dos Trabalhadores precisaria fazer talvez não consiga realizar. Virar-se ainda mais para os chamados “grupos de minorias”, que não são nem mesmo a minoria. Não cultuando a igualdade entre os cidadãos – outra figura fraca do direito – mas a real prática de justiça. No horizonte de uma promessa, a necessidade imperiosa de hoje é aquela do “é preciso”, da inclusão imperativa de um fazer acontecer o acontecimento. É preciso encerra, de modo paradoxal porque nada encerra, a abertura ao outro. É preciso implica uma desistência do sujeito, do indivíduo indivisível, do indivíduo concebido como o cerne do cidadão. O cidadão deveria ser lido como uma espécie de generalidade da divisibilidade infinita, contudo, ele é tido apenas como aquele que responde por sua individualidade diante e perante um Tribunal, às leis, ao poder instituído e às dinâmicas de repressão que ele mesmo aceita. A condição do indivíduo é ser calculado por aquilo que ele tem de especial, único e próprio. A incondição da justiça (e talvez da verdadeira cidadania) seria justo o oposto, uma incalculabilidade diante do que é preciso ser feito diante e para e por outro. É essa a guinada que, de modo amplo, poderia conter os direitos novos para uma justiça por vir. E isso talvez estivesse no horizonte do PT – do PT de seus militantes, claro, de sua cartilha, de sua história, de seu governo federal vitorioso. E isso nunca estará no horizonte de um PSDB, de um DEM, de um PMDB, de um PV etc.

Nossa vadiagem democrática, para usar uma expressão de Bush desconstruída por Derrida, talvez leve-nos àquilo que a democracia talvez não queira de forma consciente, mas que pratica no modo inconsequente. A aclamação meio ridícula pelo impeachment da presidenta – vindo dos meios mais estúpidos de uma falsa indignação, de uma suposta revolta (on line, alguns dizem inclusive) – representa o modo quase jocoso com que lidamos com assuntos sérios e como nos desviamos simplesmente dos problemas fundamentais do país. É mais sério pedir o impedimento do Poder Executivo do que, por exemplo: (1) combater os absurdos da Polícia Militar, com sua desfaçatez assassina e com os modos mais cruéis do extermínio que vem ocorrendo no Brasil; (2) responsabilizar o Estado de São Paulo por uma total falta de planejamento hídrico e florestal, por seus usos abusivos de recursos naturais; (3) discutir de modo sério as questões de abusos morais e sexuais e a violência doméstica cometidas contra mulheres; (4) compreender e nos esforçar verdadeiramente para o combate à fome e miséria; (5) combater cotidianamente essa falsa moral anti-corrupção, uma vez que no mais das vezes os maiores corruptos estão bem diante de nossos olhos, nas relações de convivência, de trabalho, de troca de capitais, no velho “jeito” que se dá nas coisas sempre para tomar ou tirar vantagem; (6) montar uma verdadeira política de assentamento e distribuição de terras, para produção agrícola que não dependa necessariamente dessa indústria do Agronegócio e, sobretudo, para a transformação cultural de assentados e trabalhadores; (7) resolver o problema de moradia que assola as principais cidades brasileiras; (8) desenvolver uma real política cultural em que cada centavo investido represente não aquilo que querem as Grandes Corporações da Indústria de Entretenimento, mas a Cultura Nacional de um modo justo; (9) garantir educação pública e de qualidade gratuitamente para todos os brasileiros em todos os níveis; (10) produzir tecnologia e saber que se converta em benefício social para o país; (11) uma reforma política que proíba de fato toda campanha suja? E poderia continuar listando ações calculáveis para uma democracia mais plena, para um Estado menos violento.

O Estado democrático é um estado formado pela voz do povo e no regime representativo que nos encontramos essa voz é transferida. Essa transferência é quase sempre problemática, tendo em vista que os representantes são oligarquicamente formados, que eles gostam de exercer o poder do Estado como um estado-de-exceção. No entanto, a voz pode ser retomada com a participação pública no debate. Retomar a voz não significa simplesmente pedir o impedimento da presidência, por interesses cada vez mais espúrios, mas fazer com que o Legislativo aja de acordo com nossa voz... Hoje, dia 09 de fevereiro, ouvimos o presidente da câmara dizer que Aborto, Direitos dos Homossexuais e Regulação da Mídia não serão votados no período de sua condução da casa. Ninguém esperava menos, ninguém esperava nada. Mas dizê-lo é dizer o que a autoimunidade democrática produz: poder autoritário sobre assuntos que sempre são tabus e necessários para que se mantenham silenciados. Dizer não a essas votações é dizer não a uma agenda que busca não apenas o direito constituído, mas a justiça. Fica a pergunta mais relevante no momento – que nada tem a ver com a postura de Dilma: Qual é a agenda do país? Se é aquela das bancadas ultraconservadoras do Congresso Nacional, então não vivemos mais uma democracia, a estamos enterrando. Não é a pá de cal, como noticiada pelos meios de comunicação como sendo de José Dirceu, sobre o PT, mas é a pá de cal sobre nós todos. Criminalizar o Partido é talvez mais fácil do que assumir a responsabilidade pela morte de cada homossexual que será agredido e morto por esse tipo de “política”, por cada mulher pobre que terá de fazer um aborto clandestino por essa forma de “moral”, por cada calúnia irresponsável dita e cultuada como séria por essa apresentação do “correto”, do “democrático”, do “livre”.

Vivemos hoje um Estado de Direito Democrático que criou para si um terrorismo autoimune. Destrutivo e vadio, o estado das coisas tem se tornado aquele da moral superfaturada por meios de comunicação que não se preocupam com o mínimo de informação. Jornais, canais, sites, revistas que já deviam estar extintas não por aquilo que elas fazem simplesmente, mas PORQUE elas o fazem. Ser leitor-espectador disso e ainda querer ser intelectualizado é uma contradição de termos. O pior, nessa autoimunidade, é que o próprio Partido dos Trabalhadores começa a temer, a própria presidenta, ao que parece, irá ceder à mídia. Destrutivo por ser massacrante e repetitivo. Parcimonioso e paquidérmico, o modo com que essas informações bombardeiam nossas timelines, nossos tuítes, nossa cabeça é porco e falastrão, como o bom corrupto (aparentemente bom, belo, homem, branco, bem-sucedido, Eduardos Cunhas, aqueles que muitas vezes se querem reconhecer nele...). Nesse terror – talvez o maior de todos seja o estranho “Jornal da Globo” – tudo o que eles mais querem é uma queda monumental de cada direito conquistado, de cada gesto em direção ao outro. Sem motivo? Não, a manutenção de certo controle social é fundamental para o bom andamento dos negócios de vendas. Quando uma rede de TV como essa é obrigada a dar a notícia da vitória de Dilma, o repórter engasga e o povo aos gritos durante o discurso após o resultado é de libertação sobre toda enganação que vem sofrendo cotidianamente. Como essa emissora não poderia então fazer senão o terror? Degolem essa mulher porque ela não pode representar algo maior do que o padrão “William Bonner”, do que o modo do gerentão de edição que ele é (aliás, a imagem de Dilma como gerentona é ou não é a mais odiada pela mídia e, agora, por uma parcela da população?). O ponto é: em um Estado de Direito Democrático o que não há é justamente a democracia em ação, há o direito em se manter democrático de acordo com determinados padrões que não são os de Dilma (quero dizer, mulher, bem-sucedida, militante, ex-presa política, filiada a um Partido com pretensões de esquerda, autônoma, mãe de uma filha, divorciada, gerente do país e do Governo, autoritária). Essa mulher é quem estão caçando para que possamos nos manter sob a égide do país entregue senão a uma corrupção infindável e impronunciada nas cortes (que ainda ali se exerce um poder absolutista abscôndito) a um entreguismo internacional e liberal da forma mais escancarada e imoral.

A autoimunidade é também uma autoimundice do mundo. Necessidade em se criar um mundo e dar a ele um sentido, vivemos o mundo em negativo, o i-mundo do mundo. É imundo tudo o que é próprio ao mundo, tudo o que dele é mais limpo, mais aparentemente límpido e correto. Essa imundice é o espectro de uma democracia que poderia vir a ser. Democracia em que é imundo calar-se. Democracia que pede atenção a cada desvio de conduta sob o pretexto de correção e aperfeiçoamento da vivência democrática, como se houvesse uma única e possível vivência democrática que não fosse um conviver. Dizem de tudo do já mitificado Lula (da doença aos xingamentos que perduram por mais de 30 anos!!!). Dizem de tudo do silêncio de Dilma. O silêncio de Dilma representa também ele nosso silêncio. Seu silêncio deu a ela uma queda de popularidade – como se isso representasse um aval para o impedimento, como se uma pesquisa de popularidade fizesse com que se pudesse simplesmente abrir uma longa discussão na “agenda” do Congresso sobre esse assunto. O silêncio de Dilma é a sua aporia. Agamêmnon, o chefe do aqueus na Guerra de Troia, teve de viver uma aporia para zarpar: matar em sacrifício sua filha Ifigênia para acalmar os deuses (sobretudo Ártemis e sua corça sagrada) ou não matá-la e ser morto para que os aqueus pudessem eles mesmos (em sua sede quase “democrática”) matá-la para acalmar os deuses. Não que Agamêmnon, apesar de toda prepotência narrada, o tenha feito para se salvar, para salvar a própria pele na pele de Ifigênia. Ele o faz como responsabilidade diante do Estado, diante das crenças. Ele a mata como Abraão teria matado Isaac se não fosse a mão do anjo. Ele a mata respondendo a uma responsabilidade radical, ao outro totalmente outro. Ele o faz para zarpar. O restante dos motivos a mim são espúrios: guerra, riqueza, glória imperecível. O silêncio de Dilma, que deve ser rompido daqui a pouco, representa o infigurável da democracia: ela não tem o direito (democrático) de se calar. O que esperar? Que simplesmente ela rompa o silêncio, como o fez quando das manifestações de junho de 2013 e ninguém a ouviu? Que exerça de modo programático uma gestão carismática para responder à grande mídia? A resposta que está no horizonte desse imundo mundo é que seu silêncio reflita – é bom o silêncio para a reflexão, para a meditação – novas e poderosas ações sociais, de investimentos públicos contínuos nas áreas que alteram verdadeiramente a vida das pessoas, de aproximação com a militância e, com isso, a forçar que a “agenda” do Congresso não seja aquela conservadora de Eduardo Cunha. O silêncio de Dilma é uma aporia porque ela falará por nós ou esse “nós” (em que não estou incluído) quererá falar por ela.


Brasília, 09 de fevereiro de 2015.

terça-feira, novembro 25, 2014

supões o tempo




quando calar, a língua
ainda oscilará e, logo,
minha voz arrefece o
amor – fraca conjuntura –
disso que recende o
oco o voo o vão para deitar
em ti o que me basta –
oblíquo instante sobre a
face, sobre o colo que não
mais.

quando calar o tempo
ainda será uma palavra
em esboço, do que poderia,
em tábua, a gravura disso
que é noite – e não basta –
e pele, extrema calma
de sopro.

quando calar esse nós,
o dia claro, essa palavra
será termo e, extensa,
o corpo deixado
de barro ou só
para outro
tempo.